Por Suéller Costa

A terceira edição do Festival “Encontro com o Porvir”, realizado em maio na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), reuniu professores, gestores, pesquisadores e especialistas da educação básica para discutir um tema que atravessa o cotidiano das escolas brasileiras: “Valorização e cuidado para quem ensina”. Com uma programação intensa, o evento reforçou a necessidade de reconhecer o trabalho docente em suas múltiplas dimensões: emocional, pedagógica, social e institucional.

Representando o Educom Alto Tietê, acompanhei de perto as discussões, oficinas e apresentações que marcaram o encontro, que também celebrou os vencedores da terceira edição do Prêmio Professor Porvir.

“Quem garante cuidado e valorização para professores no Brasil?”. Com este questionamento, a diretora-executiva do Instituto Porvir, Tatiana Klix, deu início às reflexões, destacando a importância de criar espaços de escuta e troca entre educadores. Em seguida, mediou a mesa de abertura com Anna Penido, do Centro Lemann; Paula Beatriz, diretora de uma escola no Capão Redondo pertencente à rede estadual de São Paulo; e Fernando Penna, da Universidade Federal Fluminense (UFF).

A provocação inicial guiou um debate profundo sobre acolhimento, condições de trabalho, violência nas escolas e o papel das políticas públicas.

“Valorização depende de muitas camadas”

Para Anna Penido, cuidar dos professores exige olhar para aspectos que vão muito além da sala de aula. Ela destacou a necessidade de condições físicas adequadas, infraestrutura, clima escolar saudável e suporte profissional.

“É muito triste ver jovens que não querem seguir a profissão. Valorização depende de muitas camadas, envolve reconhecimento moral, social e institucional”, afirmou.

Anna também reforçou que a gestão escolar precisa se apoiar em ciência e processos claros de escuta e participação. “Gestão de pessoas requer ciência. É preciso criar ambientes que fortaleçam o clima escolar e combatam microviolências que se acumulam no cotidiano”. 

“A violência contra educadores nos mostra um cenário alarmante”

O pesquisador Fernando Penna apresentou dados do Observatório Nacional da Violência na Educação, revelando um quadro preocupante. Segundo ele, nove em cada dez professores já sofreram algum tipo de violência no ambiente escolar.

“A violência contra educadores aumentou em momentos politicamente críticos. Perseguir professores virou capital político”, alertou.

Penna destacou que, muitas vezes, os próprios agentes da violência são membros da comunidade interna, inclusive gestores, e que a falta de apoio institucional agrava o problema.  “Quando a violência não é interrompida, o professor trabalha com medo. Isso destrói a gestão democrática e afeta diretamente a aprendizagem”.

Ele também chamou atenção para a perda de autonomia docente, especialmente em algumas redes privadas. “O professor não é infalível, mas precisa ser respeitado pelo seu profissionalismo”, ressaltou.

“Se queremos alunos bem, precisamos de professores bem”

A professora Paula Beatriz, que atua na região do Capão Redondo, reforçou que o respeito é a base de qualquer política de valorização. Ela é a primeira diretora trans da rede estadual de São Paulo, e a sua representatividade no universo escolar inspirou aqueles que a ouviram, uma vez que trouxe – sob o olhar de quem está dentro das salas de aula – o que é urgente no espaço educativo: promover o respeito mútuo, a boa convivência, o trabalho colaborativo, a valorização tanto individual quanto coletiva daqueles que tornam o aprendizado possível, ou seja, os professores.

Baseando-se em sua experiência, ela elencou vários aspectos, como a importância de uma gestão democrática, que escuta, acolhe e convida a sua equipe de professores a participar de todas as demandas escolares, para que façam parte das decisões, sugiram as mudanças necessárias, construam juntos um espaço, de fato, melhor para todos. Ela apontou que os professores precisam se sentir integrados, e, sobretudo, felizes em seu ambiente de trabalho para, então, estarem fortalecidos para, também, acolher seus alunos. “

Se o objetivo da escola é desenvolver cognitivamente nossos alunos, nossos professores precisam estar bem”, destacou.

Sua fala ecoou entre os participantes, que reconheceram a urgência de políticas que garantam condições dignas de trabalho e saúde emocional.

Mediada por Tatiana Klix, diretora do Instituto Porvir, a mesa de abertura, com o tema “Quem garante cuidado e valorização para professores no Brasil?”, contou com a participação de Anna Penido, Paula Beatriz e Fernando Penna | Foto: Suéller Costa

Rodas de conversa, oficinas e projetos inspiradores

No período da tarde, os participantes se dividiram entre diversas atividades. Participei da roda de conversa “Projetos interdisciplinares: como trabalhar entre pares para criar projetos que dão orgulho?”, conduzida por Lilian Bacich.

Ela destacou a importância da profissionalidade docente, da colaboração entre pares e da intencionalidade no planejamento.

“Projetos não são apenas pesquisas. Eles precisam provocar mudança e partir de situações-problema reais”.

Lilian revisitou diferentes linhas teóricas — de Freinet a Hernández — e reforçou que o trabalho por projetos exige amadurecimento institucional, sistematização e documentação.

“Comecem pequeno, registrem, compartilhem. Valorização também é mostrar o que fazemos”.

Em seguida, acompanhei a oficina “Tecnologia além do básico: domine a IA para facilitar suas tarefas com ética e responsabilidade”, com Giselle Santos, que apresentou ferramentas e reflexões sobre o uso responsável da inteligência artificial na educação. Mais um encontro importante para acompanhar as tendências contemporâneas e seus reflexos nos novos modos de ensinar e aprender.

Pela manhã, participei de uma roda de conversa sobre “Projetos Interdisciplinares” com Lilian Bacich; e à tarde, de uma oficina sobre Inteligência Artificial na Educação com Giselle Santos | Foto: Divulgação

Encerramento com homenagens aos vencedores do Prêmio Porvir

O dia terminou com o espetáculo teatral “Mundo da Educação em Cena: Um espetáculo teatral para celebrar histórias do Prêmio Professor Porvir”, interpretado por Beatriz Alves, Bruno Silvério e Nayara Fauzir. De forma sensível e bem-humorada, os atores revelaram os dez professores vencedores do prêmio, que contemplou projetos inspiradores nas seguintes categorias: Educação Infantil, Ensino Fundamental – Anos Iniciais, Ensino Fundamental – Anos Finais, Ensino Médio, Língua Inglesa, Educação Financeira, Educação Antirracista, Educação Socioemocional, Tecnologia, Votação Popular.

De forma sensível e bem-humorada, os atores Beatriz Alves, Bruno Silvério e Nayara Fauzir revelaram os dez professores vencedores do Prêmio Porvir 2026 | Foto: Suéller Costa

Os homenageados emocionaram o público com projetos que mobilizam territórios, fortalecem vínculos e mostram o potencial transformador da autoria docente. Para quem esteve presente — como esta educomunicadora — o encontro foi um convite à reflexão e ao reencantamento com a profissão.

Entre debates, oficinas e celebrações, ficou evidente que valorizar o professor é condição para garantir uma educação de qualidade.

Voltei para o Alto Tietê inspirada e convicta de que iniciativas como essa precisam se multiplicar. Da minha parte, desejo que venham novos projetos, novas redes de apoio e mais encontros que coloquem o professor no centro da conversa, onde ele sempre deveria estar.

Os dez professores vencedores do Prêmio Porvir foram revelados por meio de uma apresentação teatral | Foto: Suéller Costa