Por Suéller Costa
Um ponto de encontro entre educomunicadores brasileiros, com direito a partilhas, afetos, inspirações, renovação de energias para dar continuidade às ações, projetos e pesquisas em busca de políticas públicas nos âmbitos municipais, estaduais e federais para levar a Educomunicação a todos os cantos do País. Uma vez que acreditam na potência dessa área para ampliar a promoção da cidadania, e, pelo direito à comunicação, fortalecer a democracia. Esta foi a sensação compartilhada entre todos que puderam marcar presença no X Encontro Brasileiro de Educomunicação, realizado entre os dias 21 e 23 de novembro, na Faculdade de Comunicação (FAC), da Universidade de Brasília (UnB).
Com o tema “Educomunicação nas Políticas Públicas: a urgência da participação social para a cidadania”, o evento foi organizado pela Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom) e o Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (NCE/USP) em parceria com diversas instituições nacionais. Recebeu mais de 400 inscrições, contando, inclusive, com participações internacionais. Segundo os organizadores, 221 trabalhos foram inscritos, distribuídos em 47 Grupos de Trabalhos (GT), apresentados ao longo de dois dias. E, em consonância às experiências, a programação contou com sete mesas-redondas, oito painéis, duas oficinas, exposições e jogos educomunicativos em todo o seu percurso.
Realizada de forma híbrida, com atividades presenciais e virtuais, as atrações contemplaram todos os públicos, que conheceram iniciativas realizadas em diferentes espaços, sobretudo, os educativos, dos âmbitos formais, não formais aos informais, da educação básica ao ensino superior. Houve, ainda, a socialização de propostas realizadas em universidades, instituições, organizações, coletivos, dentre outros ambientes, em todas as áreas de intervenção, desenvolvidas por educomunicadores, que veem o diálogo entre a comunicação e a educação como estratégia para fomentar, transversalmente, um educar com, pela e para as mídias, para a construção de um olhar mais crítico ao universo informacional e emancipador aos recursos tecnológicos, habilidades importantes para a promoção da cidadania, sobretudo, frente à cultura digital.

Emergência de políticas públicas
A programação evidenciou a potência da Educomunicação e da necessidade, urgente, de políticas que a fortaleçam. “Precisamos de Políticas Públicas em Educomunicação”, conforme ressaltou Ismar Soares, presidente da ABPEducom, durante a mesa de abertura. O professor-titular da ECA-USP, um dos pesquisadores precursores da sistematização e disseminação dessa área, tanto no campo teórico quanto prático, enalteceu o evento, por ser um dos que reúnem estudiosos, pesquisadores, profissionais que têm tornado a Educomunicação possível. Educomunicadores, que, de Norte a Sul, em seus espaços territoriais, veem este diálogo entre a comunicação e a educação como possibilidade de fortalecer a participação cidadã, que, ao valorizar as vozes de diferentes camadas sociais, pode contribuir para mudanças significativas em suas regiões, necessárias para o desenvolvimento contínuo de seus territórios.
“Educomunicação fala de personagens, grupos. Dialoga com a educação e a comunicação, por isso nós nos colocamos em uma posição de interface. A formação do campo depende da sua essência, da sua existência, ou seja, da sua práxis, que acontece em meio à sociedade. A Educom não é um campo absoluto, e sim, relativo, porque ela ouve, escuta e dialoga. E, deste processo, saem os esforços em busca de políticas públicas, que são feitas para as pessoas e pelas pessoas”, destacou Soares.
Segundo o pesquisador, o tema desta edição ressalta a emergência deste olhar mais político às práticas educomunicativas, a fim de garantir sustentabilidade e um maior reconhecimento àqueles que as consolidam. “Existe a urgência da participação social, do reconhecimento do que existe no País. A partir disso, poderemos fortalecer a criação de políticas públicas e um olhar especial à gestão dos processos comunicacionais”, apontou.

Impactos educacionais
Diante da aceleração tecnológica, que vem impactando todos os setores, principalmente, o educacional, torna-se urgente uma educação frente ao sistema de meios de informação, cujos formatos, ao migrarem do analógico ao digital, transformaram os modos de ensinar e aprender; de comunicar, interagir e socializar; de se envolver com um mundo que se tornou ubíquo. Os reflexos destas mudanças estão sendo vistos, sobretudo, na Educação Básica, que tem adotado medidas preocupantes para lidar com os recursos midiáticos e tecnológicos no processo educativo.
Este foi um dos assuntos que “esquentaram” os debates. Uso das Inteligências Artificiais Generativas (IAs); proibição dos celulares nas escolas; diminuição dos tempos de tela; perfil das novas gerações frente às tecnologias foram temas que suscitaram perguntas da plateia, que questionou os integrantes de várias mesas, não só da abertura, quanto as formas que Educomunicação poderia auxiliar os educadores a lidarem com os imperativos tecnológicos inseridos no processo de ensino e aprendizagem.

Mediações Tecnológicas
Os longos debates mostraram que a interface é um dos caminhos para acompanhar essas mudanças de forma construtiva, uma vez que a coerência epistemológica da área educomunicativa em consonância com a sua aplicabilidade nos diversos projetos em desenvolvimento demonstram quanto essa área tem a contribuir com o ensino contemporâneo, além de ajudar a lidar com o que se vem presenciando, conforme apontou o professor Soares.
“Estamos presenciando uma colonização da educação, com a repetição de materiais educativos, aprisionando o sistema. Leis impondo o não uso dos celulares, medidas proibitivas sem escutar os jovens, sendo que os usos e apropriações desses recursos tecnológicos serão cobrados mais tarde”.
O professor Marciel Consani, docente da ECA/USP e do PROLAM/ USP, integrante da quinta mesa, destacou que, ao longo dos anos, a mídia vem ganhando novos sentidos. Antes era vista como canal, comunicação de massa, suporte, e, agora, é compreendida como “ambiente”. Segundo seus estudos, é necessário uma educação midiática, e, ao ser trabalhada no âmbito educativo, ela deve ser estruturada em três dimensões: ontológica e epistemológica, que destaca a intencionalidade das mídias; pedagógica, que estabelece por meio de projetos que partem diante de demandas sociais, cujos recursos midiáticos são vistos como forma de visualizar essas necessidades e potencializar ações efetivas para amenizar problemáticas; e, por fim, a didática, que se preocupa com os métodos, as possibilidades para unir, de forma indissociável, o entendimento do conceito à sua prática.
São três dimensões intrínsecas, que devem ser construídas de forma conjunta com a sociedade. “Não tem como separar um ato educativo de um projeto social. É necessário usar as instâncias midiáticas criticamente, e, antes disso, promover a inclusão digital, uma vez que as mídias, hoje, são vistas como ambiente, ou seja, seu aspecto material está associado ao seu aspecto de vida, estamos sendo sequestrados pela midiatização”, apontou Consani. Além de entender esses processos, o educador ressalta que, ao promover esta interação sob o viés da Educomunicação, a atuação será junto à sociedade.
“A Educomunicação trabalha a partir de uma demanda concreta, social, e ela se constrói na prática, na indissociabilidade entre o conceito e a prática. Precisamos promover a inclusão digital”, apontou, ressaltando que os usos, apropriações, intencionalidades também devem ser orientadas no educar para, com e pelas mídias. “É preciso dar sentido e significado ao trabalho realizado com esses recursos e ao que é realizado a partir das demandas”, finaliza Consani.
Diante deste cenário, uma educação para a comunicação é vista como uma prática indispensável à promoção da cidadania; importante para que as mediações possibilitadas pelas tecnologias contribuam para a construção dos ecossistemas comunicativos, críticos, abertos e participativos, a fim de impulsionar a participação social em todos os ambientes, sobretudo, no virtual.

